SOBRE O USO DO PANO DE CABEÇAS POR HOMENS - TVR USM

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SOBRE O USO DO PANO DE CABEÇAS POR HOMENS


 Sobre o uso do Pano de Cabeças por Homens...

Há alguns dias publicamos em nossa página, uma foto na qual orientava o uso do “we gele” (pano de cabeça – turbante) para as mulheres e do Filá (chapéu – gorro) aos homens. A publicação em questão suscitou um elevado número de questionamentos, motivando-nos a aprofundar sobre o tema em pauta.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que as publicações na página oficial do Terreiro de Òsùmàrè não possuem como objetivo a imposição de regras à sociedade do Candomblé, possuem sim, o objetivo de orientar e difundir conhecimento aos filhos e descendentes do Asè Òsùmàrè, sobretudo àqueles que por conta da distância, não possuem acesso às tradições, costumes e dogmas da nossa Casa. Sobre isso, é nosso dever e obrigação transmitir informações elucidativas aos nossos descendentes, buscando diminuir distâncias e desinformação. Nossa página, presta igualmente serviço à sociedade, pois ao longo dos anos, transformou-se em um importante instrumento de defesa e reivindicação dos direitos do nosso povo.

Atualmente nossa página possui mais de 300 mil seguidores, dentre os quais além dos descendentes diretos e indiretos do Òsùmàrè, estão membros de outras importantes famílias de santo, que vislumbram em nossa Fanpage, um canal de comunicação salutar para a cultura do nosso povo. Isso incorre, porém, que determinadas publicações cause descontentamento em algum grupo de pessoas, sendo que embora existam similaridades entre muitas dessas tradições, não há equidade entre elas. Assim, reforçamos que nossas publicações discorrem acerca das tradições do Ilé Òsùmàrè Araka Asè Ogodo.
Dessa forma, abaixo, esclarecemos sobre o uso do pano de cabeça no Ilé Òsùmàrè Araka Ase Ogodo, algo que também é praticado em muitas casas tradicionais do Candomblé da Bahia.

Em nossa casa, o Asè Òsùmàrè, o uso do pano de cabeças é restrito às mulheres, salvo as exceções abaixo:

•Quando suas cabeças estão acomodando Asè (Asè de Bori, Asè de Oro e/ou em obrigações);

•Nas águas de Òsàlà, pois suas cabeças foram lavadas e purificadas;

•Em rituais fúnebres (na indisponibilidade do Filá);

Em alguns comentários foi mencionada a utilização do pano de cabeças por filhos/descendentes do Asè Òsùmàrè. A respeito disso, reafirmamos que em nossa Casa a utilização é vedada, à exceção dos exemplos mencionados. Essa é a orientação do nosso Asè, quem fez ou faz diferente dessa orientação sendo filho de nossa Casa, não está seguindo a nossa tradição.

Em alguns comentários foi mencionado que africanos utilizam pano de cabeça. Sobre esse ponto é importante ressaltar que a África é um continente e não um pequeno povoado e que nesse continente existem muitas religiões, dentre as quais o islamismo, na qual o uso do turbante por homens é prática comum. A cultura do Asè Òsùmàrè é Nago-Ketu e, em nossa tradição familiar, seja no Brasil ou na África, homens não utilizam o pano de cabeça (com raras exceções como mencionado). Na cultura yorùbá, em uma sociedade secreta chamada Ogboni, há homens que possuem dentro dessa maçonaria um título específico que lhes permitem o uso do “Itagbe/Saki” na cabeça. Esse pano (muito bonito, confeccionado por pessoas específicas), de uso único e exclusivo de membros da sociedade Ogboni, também está sendo erroneamente utilizado por pessoas que não fazem parte desse grupo, simplesmente por acharem o pano bonito, algo que também fere os dogmas dessa sociedade. Via de regra, nas tradições yorùbá, o pano de cabeça é utilizado somente por mulheres, com raras exceções.

O que observamos é que o pano de cabeça está sendo indevidamente utilizado como forma de ostentar conhecimento e/ou “grau”, ou seja, quanto maior o pano, maior a posição daquela pessoa no Asè – o que é uma grande inverdade, sendo que o pano de cabeça não confere conhecimento ou posição hierárquica dentro do Candomblé.

Em alguns comentários da publicação anterior, foi aventada a possibilidade de a restrição do uso do turbante em homens no Candomblé ter emergido pelo preconceito matriarcal da Bahia, um grande equívoco, pois grandes Terreiros da Bahia foram fundados por homens, assim como a Casa de Òsùmàrè, fundada por Baba Tàlábí em 1836, contudo, não negamos a existência de tradicionais casas que não iniciam homens Iyawo, algo que em nada relaciona-se ao uso ou não do pano de cabeça.

Foi indagado, ainda, se a restrição seria uma imposição somente do Terreiro de Òsùmàrè, outro engano, pois esta orientação pode ser observada em outras tradicionais casas de Candomblé, mas há exceções.

Os registros visuais de grandes baluartes masculinos da história do Candomblé, tais como Pai Nezinho da Muritiba, Seu Procópio de Ògún, Seu Bernardino do Bate Folha, evidenciam que mesmo detentores de sapiência e reconhecimento singular no Candomblé, os mesmos não utilizavam pano de cabeça. Sobre isso, como já mencionamos acima, estamos falando das tradições do Asè Òsùmàrè, porém, também são ou foram observadas em outras tradições da Bahia.

As vestimentas dentro do Candomblé sempre serão alvo de polêmicas, sendo que é de conhecimento comum que algumas peças ditas tradicionais não nos remetem à África, entretanto, é preciso analisar as tradições do Candomblé matricial Baiano, bem como, as tradições matriciais de outras regiões como, por exemplo, Pernambuco, Maranhão, etc. que também receberam africanos e que edificaram tradições em suas terras.

Acreditamos, também, que a predominância feminina no sacerdócio, fez com que muitos acreditassem que o pano de cabeça fosse de uso comum em todas as tradições/famílias para todos, algo que não condiz com a realidade praticada em muitos Terreiros centenários da Bahia.

Ainda sobre a tradição do Òsùmàrè, recordamos que o fundador, Babá Tàlábí não usava we gele, seu sucessor Babá Salako e Babá Antonio também não usavam. Assim, Pai Pecê também não usa (excetua-se os casos mencionados). Essa é a prática da nossa casa e que tentamos transmitir aos nossos descendentes, sendo seguida pela grande maioria. 



FONTE : Casa de Oxumarê

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