LUTO: MORRE AOS 106 ANOS OGAN BÁNGBÀLÀ, COM LEGADO DE MAIS DE 90 ANOS NO CANDOMBLÉ
Morreu, aos 106, Luiz Ângelo da Silva, o Ogan Bángbàlà. Notas de pesar publicadas nesta segunda-feira (16) por lideranças, casas de santo e páginas dedicadas às religiões de matriz africana comunicaram a morte do mestre do atabaque conhecido como um dos mais antigos ogãs em atividade no Brasil.
Baiano que atravessou mais de um século de história com o corpo e o ouvido formados no rito, no toque e na transmissão oral de fundamentos, ele se radicou no Rio de Janeiro, onde viveu por décadas, recebendo reconhecimento institucional por sua trajetória religiosa e cultural, com homenagens que o colocaram no centro de uma disputa essencial no país: o direito de o axé existir sem coerção, estigma e violência.
Da Muriçoca ao axé no Rio
Luiz Ângelo da Silva nasceu em 21 de junho de 1919, no bairro da Muriçoca, em Salvador. Filho de Maria Ângela da Costa e Izauro Ferreira da Silva, registros mostram que ele foi batizado aos 10 anos na igreja de Nossa Senhora de Brotas.
Ainda na Bahia, Bángbàlà aparece ligado a casas que atravessam a formação do candomblé na cidade. Ele se considerava “derivado do Terreiro Língua de Vaca”, de nação ijexá, no bairro Garcia, também conhecido como Terreiro da Curva Grande, ativo até meados do século XX.
A primeira ida ao Rio ocorreu em 1945, por convite do babalorixá Álvaro Pé Grande, para auxiliar rituais de iniciação. Depois de um retorno breve a Salvador, ele se mudou definitivamente para o Rio e passou por Vilar dos Telles, onde viveu na Rua Ceará 25, na casa de culto de Manoel Ciriaco de Jesus, Tata Nlundi ia Mungongo, até se estabelecer em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, na localidade de Shangri lá Rosa.
Um ogã “com contracheque” e a vida fora do terreiro
A trajetória de Bángbàlà não ficou restrita ao terreiro, e esse detalhe importa porque desmonta o estereótipo que empurra o povo de santo para a clandestinidade. A biografia dele em documentos oficiais da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) descreve uma vida de trabalho formal e bicos, com passagens como balconista, empregado de posto de gasolina e de depósito de gás, até a aposentadoria como funcionário do Hospital Municipal Salgado Filho. O texto registra uma frase que virou marca de sua identidade pública: “um ogã com contracheque”.
Casado com Maria Eni Souza Moreira, identificada na mesma biografia como Harrungindala, Bángbàlà seguiu no cotidiano de Belford Roxo com uma autoridade construída no rito e no tempo. Essa combinação de vida comum e função sagrada ajuda a explicar por que ele era chamado, por quem o cercava, de mestre e de “biblioteca viva”.
O toque que organiza o rito
Em casas de candomblé, o ogã é pilar de sustentação do rito. Quando o toque do atabaque começa, não se trata de trilha sonora. O ritmo organiza a liturgia, orienta cantos, marca passagens e dá a estrutura para que o sagrado aconteça, com disciplina e precisão. Ogãs também podem conduzir instrumentos como agogô e atuar como guardiões do protocolo interno do culto.
A Fundação Cultural Palmares descreveu Bángbàlà como ritmista sacerdote e artesão de atabaques e agogôs, com técnicas preservadas entre terreiros de Salvador e Belford Roxo. A instituição também o situou como referência pública da ligação entre música, espiritualidade e resistência ancestral.
Axexê, Àsèsè e um saber raro no Brasil
Um ponto central da memória de Bángbàlà está ligado a um domínio técnico e espiritual que pouca gente carrega, o conhecimento de ritos fúnebres no candomblé. Ele era considerado um dos poucos detentores de vasto conhecimento ancestral do Àsèsè e que chamava o axexê de “recepção fúnebre” e de “missa do candomblé”.
Bángbàlà atribuía vitalidade e longevidade ao serviço aos ancestrais e dizia ter carinho especial por Obaluayê (orixá africano). Há também uma frase que sintetiza o sentido pedagógico de sua presença, e sem romantização: “no candomblé nós vamos morrer velhos e aprendendo”.
Joãozinho da Goméia, “povos de santo” e circulação pelo Brasil
O alcance de Bángbàlà se mede também pela circulação. Ele viajou pelo Brasil realizando rituais ao lado de Joãozinho da Goméia, figura central na história do candomblé no Rio e no diálogo entre tradições de origem bantu, angola, nagô e iorubá.
A biografia oficial também cita a convivência que Bángbàlà dizia ter tido com “tias” africanas em Salvador, chamadas no texto de Tia Clara e Tia Rita, e associa essa memória ao papel de mestres que atravessaram o século XX preservando fundamento em um país que perseguiu, criminalizou e ridicularizou o culto afro brasileiro.
Homenagens e reconhecimento público em vida
O reconhecimento institucional de Bángbàlà não nasceu de uma única cerimônia, e sim de uma sequência de homenagens. A Alerj lista o Prêmio Camélia da Liberdade, em 2007, uma moção da Câmara Municipal do Rio, em 2012, e a Ordem do Mérito Cultural, em 2014, na classe de comendador, recebida no Palácio do Planalto.
O mesmo texto menciona homenagem em 2019 no Prêmio Atabaque de Ouro, além de condecorações e prêmios ligados à cultura afro fluminense. Em 2022, a Assembleia aprovou a concessão do título de benemérito do estado do Rio de Janeiro a Luiz Ângelo da Silva, ato que coloca o nome do ogã no registro formal do poder público.
Exposição, documentário e a disputa pela memória
Nos últimos anos, a história de Bángbàlà ganhou circulação ampliada por meio de projetos culturais. Em 2024, a mostra “Vida na Fé, Matriz Africana, edição Bángbàlà” levou ao Centro Cultural dos Correios um recorte de sua trajetória e de sua presença como ogã alagbê, com curadoria assinada por Anderson Bangbose e Elaine Marcelina, além de fotografias de Milana Trindade.
Antes disso, em 2023, o documentário “Bángbàlà, que eu receba riqueza” teve exibição no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, no Museu de Arte Moderna do Rio, e foi apresentado como filme sobre a vida do ogã.
A morte de Bángbàlà fecha um ciclo biográfico raro, mas não fecha a história que ele ajudou a sustentar. O que fica é uma rede de ogãs formados, instrumentos construídos, cantos guardados e uma pedagogia que não se aprende em manual: aprende-se em roda, em toque, em respeito ao fundamento, com o tempo como parte do rito.


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