RJ - MULHER ABACAXI CRITICA PRESSÃO ESTÉTICA NO CARNAVAL: 'QUERO MOSTRAR QUE MULHERES 50+ PODEM TUDO'
Marcela Porto, mais conhecida como Mulher Abacaxi, nunca passa despercebida. Aos 52 anos, a atriz, caminhoneira e empresária construiu um nome próprio no Carnaval do Rio de Janeiro e enfrentou décadas de julgamentos, padrões inalcançáveis e cobranças silenciosas. Atualmente, a musa trans da Estácio de Sá tem uma certeza na vida: a de que a maior transformação não foi em seu corpo, mas na forma como ela se enxerga.
"Eu não ligo mais para o que os outros pensam sobre minha estética. Cheguei a mentir minha idade durante anos, achava que não seria aceita. Também extrapolei nas plásticas. Fiz muitas. Hoje, só faço quando algo realmente me incomoda", conta em entrevista exclusiva à IMPRENSA.
Mulher Abacaxi — Foto: Allan Bertozzi/Divulgação
Para Marcela, sua relação com o próprio corpo, que sempre esteve no centro de sua imagem pública, hoje é atravessada por mais autonomia e menos culpa. Ela continua se preparando para a folia de um jeito intenso, mas sem os exageros de antes. "Treino um pouco mais pesado no período de Carnaval. Nada de mais. Já fiz muitas loucuras, mas hoje estou bem resolvida comigo", reflete.
Ainda assim, ela reconhece que os bastidores exigem sacrifícios que muitos desconhecem. "Cortar doces e frituras, por exemplo. Dieta para perder peso é complicado. Já cheguei a usar caneta emagrecedora, teve um ano que fiquei dias só comendo frango, zero carbo. No ensaio técnico me deu uma tontura, achei que fosse desmaiar. Foi loucura, porque para desfilar e sambar o tempo inteiro requer muita energia", afirma ela, que hoje tem outra meta: "Ainda estou tentando ganhar massa magra. Na minha idade é difícil.
Mulher Abacaxi — Foto: Allan Bertozzi/Divulgação
Autocobrança
Mesmo depois de tantos anos na Avenida, Marcela admite que a cobrança ainda existe, mas mudou de lugar. "Hoje ela vem mais de mim mesma. Sou muito autocrítica. Do público eu não esquento mais a cabeça", garante a atriz, entregando que aprendeu a resistir às críticas alheias nas redes sociais, onde o julgamento costuma ser cruel.
"Me chamam de velha, abacaxi passado, [falam] que faço jus ao nome. Sem contar a transfobia: falam que eu venho com uma surpresa. Já chorei, já fiquei mal. Hoje eu adoro que falem, falem bem ou falem mal, mas falem de mim (risos)", acrescenta.
Apesar de toda a experiência na folia, a atriz revela que o frio na barriga nunca some. "Existe muito mesmo, sempre parece que é a primeira vez", conta, explicando que, nos minutos que antecedem o desfile, ela tenta se permitir sentir: "Fico um pouco ansiosa, mas gosto de curtir aquele momento. A gente já fica tão tensa nos preparativos que ali é para aproveitar."
De outros Carnavais
Marcela ainda lembra de uma das maiores polêmicas de sua trajetória no Carnaval: quando esqueceu a parte de cima da fantasia e desfilou com os seios à mostra. "Não me arrependo de ter desfilado com os seios de fora. Só me arrependo de ter voltado com meu marido quando ele foi embora de casa. Depois ele me roubou. Foi um livramento, mas eu não entendi na época", afirma.
Apaixonada pela folia, ela acredita que o debate sobre empoderamento e exagero na festa precisa ser honesto. "Não tem sentido pessoas que vendem casa e moram de aluguel para pagar posto na escola. Também não acho legal mostrar partes íntimas com a desculpa de que caiu. Agora, seio eu não vejo problema. Se os homens podem, por que nós não? Se a escola deixar, eu venho com os seios de fora de novo. Quero mostrar que mulheres 50+ podem tudo", conta ela, que gosta de traduzir quem é nos looks: "Muito brilho, um pouco de ousadia e luxo. Não gosto de passar desapercebida na Sapucaí."
E para quem sonha ocupar esse espaço, mas sente que não se encaixa nos padrões, ela deixa um recado bem direto: "O padrão tem que ser o seu, não o dos outros. Carnaval é sua alegria em primeiro lugar. Esquece o que vão pensar. Sou trans, tenho 52 anos. Sou um exemplo de diversidade no Carnaval. Hoje o samba está mais diverso, mas ainda falta muito. Queria ver uma rainha de bateria gorda."
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